Pe. Otacilio F. Lacerda

Artigos, textos e poesias para meditação, reflexão.

25.11.09

“Ai da alma em que não habita Cristo!”

 

“Ai da alma em que não habita Cristo!”

 

Há homilias que ficam para a história.

Esta feita pelo Bispo São Macário, no século XI, é uma delas!

Certamente poucos a conhecem e por esta razão a disponibilizo.

Sua homilia nos faz pensar sobre a habitação de Cristo em nós (cf. L. Horas V.IV p.521).

Destaco algumas palavras para quem não tiver tempo para ler na íntegra:

“Deus outrora, irritado contra os judeus entregou Jerusalém como espetáculo aos gentios; e foram dominados por aqueles que os odiavam; não havia mais festas nem oblações.

De igual modo, irado contra a alma por ser transgredido o mandamento entregou-a aos inimigos que a seduziram e a deformaram.

Se uma casa não for habitada pelo dono, ficará sepultada na escuridão, desonrada, desprezada, repleta de toda espécie de imundícia.

Também a alma, sem a presença de Deus, que nela jubilava com Seus anjos, cobre-se com as trevas do pecado, de sentimentos vergonhosos e de completa infâmia.

Ai da estrada por onde ninguém passa nem se ouve voz de homem! Será morada de animais.

Ai da alma, se nela não passeia Deus, afugentando com Sua voz as

feras espirituais da maldade.
Ai da casa não habitada por seu dono!

Ai da terra sem o lavrador que a cultiva!

Ai do navio, se lhe falta o piloto; sacudido pelas ondas e tempestades do mar, soçobrará!

Ai da alma que não tiver em si o verdadeiro piloto, o Cristo!

Porque lançada na escuridão de mar impiedoso e sacudida pelas ondas das paixões, jogada pelos maus espíritos como em tempestade de inverno, encontrará afinal a morte.

Ai da alma se lhe falta Cristo, cultivando-a com diligencia, para que possa germinar os bons frutos do Espírito!

Deserta, coberta de espinhos e de abrolhos terminará por se encontrar, em vez de frutos, a queimada.

Ai da alma, se seu Senhor, o Cristo nela não habitar!

Abandonada, encher-se-á com o mau cheiro das paixões, virará moradia dos vícios.

O agricultor, indo lavrar a terra, deve pegar os instrumentos e vestir a roupa apropriada para o trabalho; assim também Cristo, o rei celeste e verdadeiro agricultor, ao vir à humanidade, deserta pelo vício, assumiu um corpo e carregou como instrumento, a cruz.

Lavrou a alma desamparada, arrancou-lhe os espinhos e abrolhos dos maus espíritos, extirpou a cizânia do pecado e lançou ao fogo toda erva e suas culpas.

Tendo-a assim lavrado com o lenho da cruz, nela plantou maravilhoso jardim do Espírito, que produz toda espécie de frutos deliciosos e agradáveis a Deus e ao Senhor”.

 

Os “ais” acima nos interpelam:

Ai de mim se não preparar bem o Natal do Senhor!

Ai de mim se deixar o coração tomado pelos abrolhos! Ervas indesejáveis, que nos sufocam a alegria que Ele quer nos trazer no Natal…

Ai de mim se não me predispuser, permitindo no coração o arado divino, lavrando-o para que as sementes divinas possam nele serem lançadas, e os frutos por Deus esperados, abundantemente produzidos…

Ai de mim se não me deixar conduzir por Cristo, pela Sua Divina Palavra!

Ai de mim se não tiver Dele, mesmos pensamentos e sentimentos!

Minha vida reduzir-se-ia a tristezas, prantos, dores, choros, lamentos…

Mas, não!

Feliz a alma em que Cristo habita!

Peço-Te, Senhor:

Vem! Fazei em mim Tua morada.

Que seja eu, embora indigno, hospedeiro do mais belo Hóspede!

Peço-Te, Senhor:

Vem!

Fazei em nós Tua amável presença.

Que sejamos nós, embora pecadores, receptáculos de Tua graça!

Amém!

 

 

PS: Reeditado e repostado… Oportuníssimo para o Tempo do Advento que se aproxima!

criado por peotacilio    16:27 — Arquivado em: Homilias, Reflexões, atividade pastoral

Irromperá, no coração vigilante, a luz e a alegria do Natal!

Irromperá, no coração vigilante, a luz e a alegria do Natal!

 

Chegamos ao final de mais um ano!

A Igreja celebra a cada ano o tempo do Advento.

Quatro semanas em que se prepara a chegada do Verbo em nosso meio, para que o Natal seja muito mais que banquetes com comidas e bebidas, presépios, árvores de natal, amigos secretos e trocas de presentes…

Há de ser a festa da alegria em acolher o Menino Deus em cada coração humano, manjedoura acolhedora do Verbo:  

Sol nascente e luz sem ocaso,

Que vem aquecer e iluminar nossos passos.

O tempo do Advento nos coloca na mais profunda atitude de oração, com novenas, confissões…

Na oração assídua, vigiamos atentos na espera daquele que veio, vem e virá.

Em Sua primeira vinda veio na humildade da Carne.

Virá na manifestação de Sua Glória.

Na vigilância e em oração somos fortalecidos no bom combate da fé, vivendo o tempo da Igreja, o tempo do Espírito e do testemunho, ao redor da Mesa da Palavra e da Eucaristia.

Colocamo-nos em atitude de vigilância, percebendo Sua vinda nos acontecimentos.

Encontramos o Senhor da glória na história da salvação e na vida da humanidade.  

Há de se recuperar o sentido Pascal do Natal!

É muito cômodo ficarmos contemplando aquela criança na manjedoura, com Sua docilidade, ternura…

Mas, é preciso contemplar nesta mesma criança, Aquele que anunciou a Boa Nova do Reino, que passa pelo jugo da cruz, numa fidelidade ao Projeto do Pai e um amor que ama até o fim.

A Cruz que revela a força desarmada do amor.

Natal e Páscoa não são duas festas distintas!                                                  

Natal, iluminado pelo Mistério Pascal, é sempre apelo e expectativa de mudança, de conversão de preparação dos caminhos para Sua chegada. Passagens haverão de acontecer em nossa vida:

Do pecado para a graça, da discórdia à comunhão, do ódio ao amor.

O Menino Deus vem ao nosso encontro trazendo em Suas mãos a cruz como instrumento de trabalho.

Todo coração humano é como terra a ser lavrada.

Que nossa alma seja lavrada com o lenho da cruz, e que nela o Cristo plante o maravilhoso jardim do Espírito, lançando as sementes do Verbo, de Sua Palavra, como nos dizia o Bispo São Macário no século IV.

 

 

Deixemos que a Luz do Natal invada o mais profundo de nós manifestando-a em todos os lugares: na família, na comunidade e na sociedade, porque estará abundante e transbordante em nosso coração.

Ela, invadindo no mais profundo de nós mesmos, onde Deus se encontra, irromperá a mais agradável surpresa de alguém que espera e não se decepciona.

Que Ele renasça neste mais profundo de nós, em lugar privilegiado e imprescindível, o coração humano, tornando-se impossível ocultar Sua luz…

Coração humano:

Mais que presépio, uma manjedoura para o Deus Menino!

Mais que uma manjedoura, um sacrário para o Deus Eucarístico!

Como sacrário, morada do Altíssimo! Do Deus Diviníssimo!

Morada da pleníssima Luz que a humanidade aquece e ilumina!

Embora por nós imerecidos, templo privilegiado do Altíssimo!

Embora pecadores, habitação não mui digna do Santíssísmo! Amém!

Por isto:

Graças e louvores se dêem a todo o momento,

Ao Santíssimo e Divínissimo Sacramento…

 

PS: Publicado no jornal “Voz Viva” – dezembro/2007.

Reeditado para o blog.

 

 

 

criado por peotacilio    16:00 — Arquivado em: Editorial Jornal Voz Viva, Reflexões, atividade pastoral

“Ó Mãe do Autor do Reino, rogai por nós!”

“Ó Mãe do Autor do Reino, rogai por nós!”

 

Maria, por excelência, foi toda “cheia de graça”, porque cuidada pelo amor/bondade de Deus.

Sendo fiel a vontade do Pai, jamais desperdiçou a graça recebida, e nos possibilitou em seu ventre, e muito antes em sua mente, a vinda da fonte das graças: Jesus!

Com Maria, coloquemo-nos sempre em prontidão na construção do Reino!

Assim mais do que rezar:

“… Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade…”, poderemos viver:

Viver intensamente e apaixonadamente pelo Reino!

Ela, Mãe do inaugurador do Reino!

Ela, Mãe do realizador do Reino!

Ela, Mãe do conteúdo do próprio Reino!

Tendo Maria como modelo de abertura e fidelidade ao Reino, a serviço dele também haveremos de sempre estar.

Com sua ternura e carinho de mãe há sempre nos acompanhar!

Ela que O Reino ao mundo possibilitou com seu sim.

Ela que O Reino ao mundo cantou com o Magnificat.

Ela que o Reino cantou com esperança,

Viu e participou com Seu Filho em plena confiança!

Ela que amou e Nele até o fim acreditou e testemunhou,

Ajude-nos a construir O Reino do Seu Filho até o fim!

 

Salve Rainha, Mãe de Misericórdia…

criado por peotacilio    9:57 — Arquivado em: Reflexões, atividade pastoral

“Venha a nós o vosso Reino!”

“Venha a nós o Vosso Reino!”

 

Acrescento algo mais ao que disse no post “Cristo, Rei  Universo!”.

Quantas vezes rezamos o Pai Nosso e repetimos esta súplica ao Pai:

“Venha a nós o Vosso Reino…”

De que reino se trata?

Inspiro-me naquela afirmação do Prefácio da Missa, que acredito ser oportuno aqui citar:

“Com óleo de exultação, consagrastes sacerdote eterno e

Rei do universo Vosso Filho único, Jesus Cristo, Senhor nosso.

Ele, oferecendo-Se na cruz, vítima pura e pacífica,

realizou a redenção da humanidade. Submetendo ao

Seu poder toda criatura, entregará à Vossa infinita majestade um

Reino eterno e universal: Reino da verdade e da vida, Reino da santidade e da graça, Reino da justiça, do amor e da paz…”

REINO ETERNO:

Quantos reinos passaram, quantos impérios sucumbiram, pois nenhum poder terreno é eterno.

A história tem suas escritas, suas lembranças, ora belas, ora amargas da dominação de verdadeiros impérios, domínios, reinos…

Humanos que  pretenderam ser como deuses, infalíveis, eternos…

Mas, ficaram apenas lembranças, às vezes edificantes, outras vezes nem tanto…

O Reino de Jesus é eterno porque implantado no amor e pelo amor. Carrega em sua origem, o princípio vital da eternidade porque procede e volta para O Eterno: Deus.

Como Deus é Amor, e o Amor jamais passará, Seu Reino jamais passará.

REINO UNIVERSAL:

O Reino de Deus não conhece limites do tempo, nem do espaço e abrange todo o tempo, toda existência, todos os povos, todo o universo.

É a recapitulação e reconciliação da História, de toda criação e de toda criatura.

Sua universalidade faz de todos os povos um só povo, expressão da mais perfeita comunhão, fraternidade e paz.

REINO DA VERDADE:

Ele mesmo Se apresentou a nós como a Verdade que liberta – “conhecereis a Verdade e vos tornareis verdadeiramente livres”.

Toda Sua vida foi uma verdade absoluta e irrevogável do amor de Deus por nós.

Seu agir foi todo pautado pela verdade, denunciando mentiras e hipocrisias, enfrentando o pai da mentira (Satanás).

Desamarrou as correntes da mentira que aprisionavam as pessoas, rompeu tudo aquilo que impedia emergir no coração e na mente humana a verdade que traz alegria, serenidade, noites bem dormidas, amanhecer plenos de luz.

REINO DA VIDA:

Também Se apresentou a toda humanidade, e em todo o tempo, como a Vida, e disse literalmente:

“Vim para que todos tenham vida e tenham vida plenamente”.

Traz, com sua Encarnação, Morte e Ressurreição vida para o presente e ainda mais, vida que transcende o próprio tempo, eternidade!

Abriu-nos as portas da vida na eternidade.

Rompeu os muros que nos separavam da vida eterna, construída pelo pecado, pela desobediência.

O esplendor da vida que perdêramos com o pecado de nossos pais, Ele nos recuperou plenamente.

Assegurou-nos a beleza da vida desde sua concepção até seu declínio natural, para que possa desabrochar na presença de Deus: céu.

REINO DA SANTIDADE:

Fomos predestinados a uma vocação única: A santidade.

Santidade, não como uma vida para além das nuvens.

Pés fincados no chão, coração para Deus voltado, olhos por ele iluminados com o indispensável colírio da fé.

Santidade como compromisso com aqueles que nos rodeiam, como desejo de construir pontes indestrutíveis que nos fazem mais humanos, mais fraternos, mais verdadeiramente imagem e semelhança de Deus.

Santidade não como angelismo desencarnado, irresponsável e estéril, que nos faria infantilizados.

Santidade rima na palavra e no conteúdo com responsabilidade, fraternidade, maturidade, dignidade, sobriedade…

REINO DA GRAÇA:

Deus Se relaciona conosco no puro amor, na perfeita doação, ação restauradora; cumula-nos com todos os benefícios.

Sua ternura por nós é transbordante; gera e edifica cada pessoa que o coração a Ele abre.

Reino da graça é o Reino em que não há espaço para a violação da vida, como a fome, o frio, o abandono, a solidão, o encarceramento, a enfermidade sem presença amorosa e confortadora.

A vida é acolhida da graça de Deus que faz a vida mais bela, mais de acordo com os desígnios de Deus.

Graça é o cuidado de Deus para conosco…

REINO DA JUSTIÇA:

Um Reino em que as relações se dão na perfeita harmonia, na justa medida, chegando à expressão da misericórdia.

A justiça humana não dispensa o aprendizado da misericórdia divina. A justiça extingue toda possibilidade de roubo, exclusão, oportunismo, mentira, hipocrisia, indiferença, omissão…

REINO DO AMOR:

Será que é preciso dizer algo sobre esta marca de Seu Reino?

Se algo faltar em sua reflexão, convido-o a retomar o Evangelho de São João (15), em que nos exorta a amar como Ele nos amou, eis o novo mandamento.

Ou ainda o capitulo 13 de São Paulo aos Coríntios: o hino da caridade.

Se ainda algo for preciso dizer, se ainda não se sente saciado é imprescindível e deleitoso ler a 1.ª Carta de São João….

REINO DA PAZ: Shalon!

Plenitude de bens, abundância de tudo aquilo que nos faz pessoas verdadeiramente felizes, porque quem participa do Reinado de Jesus, Rei bom pastor, Rei soberano e juiz, só pode gozar da plenitude da alegria, da vida e da paz.

“VENHA A NÓS O VOSSO REINO” —

É fazer de nosso coração o trono em que Ele possa reinar.

E quando Ele reina em cada um de nós, nossa vida fica marcada pela verdade, com desejo profundo de santidade, na acolhida e abertura da graça, para que nos relacionemos na justiça, testemunhando O Amor que traz a verdadeira paz!

Seremos eternos e nos comunicaremos na linguagem da universalidade, a linguagem do Espírito: A linguagem do amor.

“… Senhor eu sei que é Teu este lugar, todos querem

Te adorar…Podes Reinar Senhor Jesus oh sim,

O Teu poder Teu povo sentirá.

Que bom, Senhor, saber que estás presente aqui,

Reina Senhor neste lugar…”

 

 

 PS: Reeditado e repostado para a Festa do Cristo Rei recentemente celebrada…

criado por peotacilio    9:36 — Arquivado em: Reflexões, atividade pastoral

23.11.09

“Cristificar”: Eis a nossa missão!

 

 

“Cristificar”:

Eis a nossa missão!

                                            

Refletindo sobre o que é ser cristão, a primeira  resposta que me veio à mente foi o verbo cristificar!

Mas, este verbo não existe, dirão, devaneios da mente, loucura, algo sem absoluto sentido…

Não procure no dicionário…

O importante é que leva-nos a pensar, por isto as aspas são para não se perder no secundário. Permita-me dispensar as aspas…

Procuremos na realidade que nos cerca.

Cristificar!

Quantas possíveis definições podemos encontrar!

Cristificar é em primeiro momento tornar-se Cristo, a tal ponto que possamos dizer como o Apóstolo Paulo:

Já não sou quem vivo, é Cristo quem vive em mim.

Tornando-se Cristo, e Ele vivendo em nós, ser sinal de Sua presença no mundo.

Torná-lo visível, crível, tocável, presente, solidário torna-se missão permanente.

É deixar-se conduzir pela Sua Palavra, pelo Seu ensinamento, acolher e viver a Boa Nova do Evangelho.

É tornar-se semelhante a Ele, configurar-se a Ele, tendo em nós Seus mesmos pensamentos e sentimentos.

É completar em nossa carne o que falta a Sua Paixão por amor a Sua Igreja.

Cristificamos quando prolongamos no dia a dia a Eucaristia que celebramos e o Cristo que comungamos.

Quando o Mistério, no altar Celebrado, crido, adorado, sem medo, por absoluto amor, nas mais diversas situações testemunhado.

Quando o Pão no altar for, por todos, partilhado, renova-se o compromisso com a paz e justiça, aurora de um mundo transformado.

Quando assumimos nossa condição de fermento na massa levedando o mundo, para que acorde numa nova aurora de esperança.

Quando assumimos a missão de ser sal para dar sabor à vida, gosto de Deus à humanidade, construindo laços de amizade/fraternidade.

Quando não deixamos apagar a Luz de Deus que em nós habita, numa fé que não esmorece diante das provações da vida.

Cristificar é:

Solidificar a família, tendo Jesus como rocha, pedra fundamental sobre a qual se edifica a igreja doméstica, onde o amor, lei maior, jamais pode faltar.

É cultivar o jardim de Deus, não com saudades do paraíso, mas como um alegre, incansável e inadiável compromisso

É não erigir a torre de Babel para chegar aos céus, mas na cruz quotidiana carregada fortalecer laços de partilha e comunhão, no amor a Deus e a toda Sua criação.

 

Cristificar não nos permite o furtar-se de compromissos em todos os âmbitos de nossa vida.

Não nos permite da luta fugir:

Lutar sempre na ousadia e teimosia de quem sabe pela defesa da sagrada vida resistir.

Não nos permite indiferenças, acomodações, discriminações, alienações. Não nos permite braços cruzar, na espera de um amanhã melhor, como se Deus de nós não quisesse precisar.

Não nos é permitido das responsabilidades múltiplas, esquivar, renunciar.

Cristificar é Ser outro Cristo para tantos outros Cristos que nos rodeiam:

Famintos, analfabetos, idosos, desamados, desesperançados, abandonados, encarcerados, mutilados nos porões da humanidade condenados…

Tornar-se outro Cristo!

Fácil? Absolutamente não!

Mas, quem disse que no cristianismo se pretende facilidades?

Como acreditar num cristianismo sem Cristo, sem o mistério da Cruz, pela qual o Amor veio e entrou no mundo?

Cristificar é, enfim, renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz de cada dia, e segui-Lo.

Vida consumir, numa alegre e esperançosa entrega da glória eterna. A cruz é inevitavelmente, em sua exata medida, instrumento de libertação, quer para o tempo presente, quer para a glória dos céus. 

Em todo tempo, inclusive na pós-modernidade em que estamos inseridos, é preciso aprender a conjugar o verbo cristificar, sem medo, sem aspas.

Cristificar:

Mais que um verbo a conjugar, pelo Verbo viver…

 

PS: Reeditado e repostado para a Festa de Cristo, Rei do Universo.

 

criado por peotacilio    12:17 — Arquivado em: Homilias, Reflexões, atividade pastoral

Cristo, Rei do Universo!

Cristo, Rei do Universo!

Coroando o ano Litúrgico celebramos a Festa de Cristo, Rei do Universo.

Para muitos ser rei é ser alguém que governa dominando, tiranizando, pela força se impondo, com proveitos incontáveis como luxo, fama, prazer, bens, terras, riquezas materiais, domínios…

Somos convidados a participar do Reinado de Jesus, reinar com Ele que é um Rei diferente:

Um reinado que não se impõe pela força, nem pela tirania, nem pelo despotismo, tampouco pelo acúmulo de riquezas, posses, terras…

O Reinado de Jesus não se impõe pela  opressão e  destruição de outro povo, pela insana sede de poder, nem pelo sangue de vítimas inocentes…

Um Reino que cresce a cada dia porque edificado no amor, e por amor, através daquele que veio, vem e virá:

“Pois é preciso que Ele reine até que todos os Seus inimigos estejam debaixo de Seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. E, quando todas as coisas estiverem submetidas a Ele, então o próprio Filho Se submeterá Àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15 25-26).

Somos, pelo batismo, partícipes deste reinado, tornamo-nos reis, sacerdotes, profetas e pastores.

Somos discípulos missionários do Rei Pastor, Rei Soberano/Absoluto, Rei Juiz de todos os povos, pois é Ele quem nos julgará se somos dignos da participação do banquete eterno, alegria sem fim, ou se seremos os malditos condenados ao fogo do inferno, queimados pelo mesmo amor que em vida repelimos, ignoramos, nos fechamos.

Céu ou inferno?

Eterna alegria ou eterno desespero?

Dependerão de nossas escolhas, de nossos gestos solidários em favor dos mais pequeninos.

Serão o prolongamento da escolha que fizermos em vida…

Seremos julgados não pela quantidade de orações, cultos, Missas, procissões…

A entrada no céu não se dá pela quantidade de nossa prática religiosa, mas… é evidente que, quanto mais rezamos, quanto mais celebramos, quanto mais a Bíblia conhecemos, maior deve ser nosso compromisso com a Vida, com nossos irmãos e irmãs.

A prática religiosa torna-se, portanto indispensável para nos fortalecer, enriquecer, possibilitando e assegurando a abertura das portas dos céus, o mergulho na eternidade/plenitude do amor de Deus.

Deus com certeza nos cobrará a ressonância de nossas orações, rezas, Missas, Celebrações.

É impensável o divórcio entre a fé e a vida.

A vida que celebramos e a celebração que vivemos andam de mãos dadas, mais ainda, se encontram em frutuoso abraço, multiplicando sinais de partilha, amor, comunhão…

Reinar com Jesus é empenhar-se com todo ardor pela construção de uma realidade marcada por princípios indispensáveis.

Reinar com Jesus é traduzir a Oração do Senhor em realidade em nossa vida:

“Venha a nós, Senhor, o Vosso Reino…”

Como rezamos no Prefácio da Missa de Cristo Rei do Universo:

“Reino eterno e universal: Reino de verdade e vida, Reino de santidade e graça, Reino da Justiça, do amor e da paz”.

Reinar com Jesus é fazer o máximo

que pudermos, por amor e com amor, para que

“Deus seja tudo em todos”.

 

PS: Reeditado e Repostado para a Festa de Cristo, Rei do Universo.

 

criado por peotacilio    12:06 — Arquivado em: Homilias, Reflexões, atividade pastoral

20.11.09

Falando sobre o amor…

Falando sobre o amor…

 

Uma conversa hipotética e interminável…

 

Livre pensar, sem pretensão alguma mais, a não ser de ajudar a crescer e amadurecer no que há de essencial do cristianismo: Amar!

Livre pensar para evangelicamente amar!

Livre pensar para o Mandamento Maior vivenciar.

Livre pensar para melhor viver e proclamar.

Livre pensar para o amor anunciar e testemunhar!

 

 Apóstolo Paulo, diga-me duas palavras apenas sobre o amor:  

 

“O amor é a plenitude da lei” e “O amar jamais passará”

E permita-me pedir a terceira:

“Nada fiqueis devendo, a não ser o amor mútuo”

 

Até mais do que três você poderia dizer…

Suas Cartas que o digam…

 

Santo Agostinho, diga-me duas palavras também:

 

A medida do amor é amar sem medida.”

 “Ame e faça o quiseres”

 

E uma terceira, se também eu puder pedir:

 

“Tarde Te amei, ó beleza tão antiga e tão nova…”

 

Se me permite transcorrer alguns séculos…

Agora pergunto a um cantor/poeta:

Qual é o sinônimo de amor e ele me responderá:

“Sinônimo de amor é amar!”

E outro assim cantou…

Se não exatamente, mas o que ficou em minha finita memória, o que foi filtrado pelo coração:

“O amor por ser exato, revela-se, por ser amor, invade e fim!”

 

E assim, concluo esta hipotética e interminável conversa…

Sem desejo de escândalo causar, como já bem o disse.

 

Interminável por que, o amor é indizível!

Quanto se diga, quanto se há de viver…

Quanto há de se amar, dívida salutar…

A dívida de amor é amar!

Ó maravilhosa dívida que a todos nos enriquece,

Quanto mais a pagamos,

 Mais a vida de teias consistentes se tece!

 

criado por peotacilio    16:11 — Arquivado em: Reflexões, atividade pastoral

19.11.09

Vigiar é…

 

Vigiar é…

 

 

Com o Tempo do Advento, a Igreja Católica começa mais um ano Litúrgico…

Os Prefácios da Oração Eucarística deste tempo são de riqueza imensa e nos inspira a escrever breves linhas.

Falam da vida do Senhor em momentos diferenciados, mas não isolados.

Ainda que possamos falar em separado, mas jamais isolados…

São absolutamente inseparáveis!

Ele veio, na primeira vinda, na fragilidade de uma criança, encarnando-Se e realizando o Mistério de nossa Redenção pela Sua vida doada e pregada na Cruz.

Ele vem na vinda intermediária, que nos separa, mas ao mesmo tempo nos coloca em perfeita comunhão e vigilância para com a da segunda vinda.

Ele virá na segunda, glorioso, revestido de poder e majestade!

Neste dia passará o mundo presente e surgirá um mundo novo e uma nova terra…

 

Na vinda intermediária, neste tempo que vivemos, Ele vem ao nosso encontro presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização de Seu Reino.

 

É o tempo da Vigilância, de modo que o Advento se constitui no tempo da alegre espera vigilante do Senhor para que possamos preparar mais um Santo e Verdadeiro Natal, para além, mas muito além do Natal das vitrines, lojas e compras, luzes e árvores artificiais.

 

Advento é tempo de nos enxertarmos mais decididamente na Árvore da Vida, para que os frutos apareçam abundantemente e a Sua luz possa iluminar a todos com quem convivemos no dia a dia.

Tempo de vigilância!

Tempo de conjugarmos o verbo vigiar, no presente, pretérito e futuro. Da primeira pessoa do singular até a terceira do plural…

O verdadeiro discípulo deve estar sempre “vigilante”!

Vigiar pede de nós algumas atitudes.

Eis algumas que dão conteúdo e sentido a necessária vigilância:

Vigiar é cumprir os compromissos assumidos no dia do batismo; Vigiar é ser um sinal vivo do amor e da bondade de Deus no mundo; 

Vigiar é não esquecer que toda vida cristã é uma caminhada rumo ao encontro final com Cristo Salvador e Juiz;

Vigiar é sentir-se responsável pela “casa” de Deus, protegendo-a de invasões estranhas, ideológicas, transitórias e parasitárias;

Vigiar é cumprir a Missão recebida: dar testemunho de Jesus e do Seu evangelho;

Vigiar é não viver como se a vida se reduzisse à duração terrena, finita, sem horizontes de eternidade, mas viver sempre na expectativa da revelação plena do Senhorio de Jesus;

Vigiar é empenhar-se na solidificação e santificação de nossas famílias;

Vigiar é viver intensamente a vida da Comunidade que fazemos parte, como pedras vivas, escolhidas e queridas de Deus;

Vigiar é assumir nossos compromissos pastorais a cada dia, por amor e no Amor, motivação única e insubstituível, certeza de êxito e fidelidade até o fim;

Vigiar é ser no mundo fermento, sal e luz;

Vigiar é fazer da profissão não algo penoso, mas participação agraciada por Deus na realização de Sua obra da criação, é ser co-criadores com Deus;

Vigiar é multiplicar momentos de intensa comunhão com Deus na oração, recolhimento necessário para fortalecer nossa intimidade com Ele, para que as boas obras se multipliquem, testemunhando esta comunhão de amor que gera belas flores e saborosos frutos;

Vigiar é assumir um caminho de alegre expectativa de Sua chegada, com revisão de nossos projetos e caminhos, podendo culminar na busca de Sua misericórdia pelo Sacramento da Penitência, com uma boa confissão e mudança de vida.

Vigiar é viver sempre empenhado e comprometido na construção de um mundo de vida, de amor e de paz…

Vigiar é:

Vigiar, vigiar…

Vigiar sempre, para que possamos acolhê-Lo, com alegria, em mais um Natal que se aproxima!

 

PS: Reeditado e repostado para quando o Advento chegar…

criado por peotacilio    14:54 — Arquivado em: Reflexões, atividade pastoral

18.11.09

O Mistério da Eucaristia em nossa vida!

                                          

O Mistério da Eucaristia em nossa vida!

 

Verdadeira Sabedoria é luz que ilumina o mundo e a humanidade!

Ó augustíssimo Mistério da Eucaristia na vida do

Presbítero e de todo cristão!

Ó beleza tão antiga e tão nova no mistério do

Pão Celerado e Eucaristizado encontrado!

Presidir a Celebração Eucarística é presidir o sacramento dos sacramentos, cume e fonte da vida cristã.

É a Celebração do sacrifício verdadeiro e pleno, sacramento e memorial da paixão de Cristo, oferecido pelo presbítero a Deus Pai, com a comunidade, na pessoa de Cristo, cumprindo às vezes de Cristo, na forma de pão e vinho, que são verdadeiramente o Corpo e Sangue de Cristo, verdadeira comida e verdadeira bebida.

Ponhamo-nos a refletir sobre tão grande Sacramento a partir da sabedoria de dois Santos da Igreja e de dois Papas muito próximos a nós. Cada um, ao seu modo e tempo, enriqueceu o depósito da fé da Igreja:

O grande teólogo, Bispo e Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, afirmou que não há outro sacramento mais salutar do que este, pois nele, os nossos pecados são destruídos (nos renovamos e reconciliamos com a Trindade Santa); nossas virtudes crescem, bem como nossa alma é plenamente saciada, enriquecida de todos os dons espirituais.

 Santo Inácio de Antioquia definia o Pão eucarístico como

“remédio de imortalidade e antídoto para não morrer”.

O Papa João Paulo II, em seus últimos escritos sobre Eucaristia, colocou em nossas mãos reflexões belíssimas sobre a Eucaristia, que acredito sejam leituras obrigatórias para todo Agente de Pastoral (Ecclesia de Eucharistia – 2003 e Mane Nobiscum Domine – 2004), cito apenas algumas:

A Eucaristia é amor levado ao extremo”;

“A Eucaristia edifica a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia”;

“A Eucaristia cria comunhão e edifica para a comunhão”;

“na simplicidade dos sinais do banquete se esconde

o abismo da santidade de Deus”;

“A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço do céu que se abre

sobre a terra – é um raio de glória da Jerusalém celeste,

que atravessa as nuvens da história e vem iluminar nosso caminho”;

“… o cristão, que participa na Eucaristia, dela aprende

a tornar-se promotor de comunhão, de paz, de solidariedade

em todas as circunstâncias da vida… a Eucaristia como

uma grande escola de paz…”

                                

Participar da comunhão com Cristo leva-nos, necessariamente, à comunhão com o próximo, no exercício da caridade, que é o amor em ação.

O Papa Bento XVI em sua primeira Carta Encílica “Deus Caritas est” refere-se à comunhão, como um ato a ser celebrado com conseqüências concretas na vida de cada pessoa e de toda a sociedade:

“Na Eucaristia Deus vem a nós corporalmente para continuar a

Sua ação em nós e através de nós”.

Multiplicando gestos de solidariedade e justiça, expressão concreta do mandamento do amor a Deus e ao próximo, como também é inseparável a relação do mandamento do amor e a Eucaristia.

 

Inevitavelmente algumas questões se nos apresentam:

Como tornar a nossa vida mais Eucarística, experimentando já as delícias do Banquete eterno preparado por Deus para nós?

Como favorecer participação mais ativa, piedosa e consciente em nossas celebrações, como O Mistério exige e merece?

 

Concluindo:

Que a Sabedoria dos Santos e Bispos, acima mencionados, nos ajude a romper as sombras de nossos caminhos em busca do Banquete Eterno sem nos esquecermos das mesas de nosso quotidiano!

 

Que em cada Eucaristia, ao Celebrar o Mistério do Amor de Deus, por este amor sejamos envolvidos e revigorados para as ações concretas e necessárias que dela são solicitadas.

 

Que Celebrando o Mistério da Eucarística tornemos nossa vida mais Eucarística e reaprendamos, mais proficuamente, a conjugar e viver o verbo eucaristizar.

 

Eucaristizar não vão e inútil neologismo…

Eucaristizar a vida há de ser a lógica de todo existir…

Eucaristizar é ter de Jesus mesmos sentimentos e pensamentos, plenamente a Ele configurado!

Eucaristizar é fazer dela, a Eucaristia, a fonte e ápice de nossa vida!

Eucaristizar é empenho incansável no bom combate da fé, até que alcancemos a plenitude da vida, participando do banquete nupcial do Cordeiro até que um dia participemos plenamente no Banquete da Eternidade.

Eucaristizar é nutrir-se do manancial de amor, Jesus!

Fonte de vida, ternura, luz e paz!

Amém!

 

PS: Publicado no jornal “Folha Diocesana” – Guarulhos – Ed. Nº123.

Reeditado para o blog.

 

criado por peotacilio    16:22 — Arquivado em: Reflexões, artigos Folha Diocesana de Guarulhos, atividade pastoral

16.11.09

Enquanto O Senhor não vem!

Enquanto O Senhor não vem!

 

Na Missa, após a consagração do pão e do vinho, temos a  Anamnese, que é a memória dos acontecimentos da Salvação (nomeadamente a Paixão, Morte, Ressurreição e Glorificação de Cristo: 

“Anunciamos Senhor a Vossa morte e proclamamos a Vossa Ressurreição. Vinde Senhor Jesus!”

O Bispo Santo Agostinho refletindo o Salmo 95,13, que trata do julgamento divino e os sacrifícios agradáveis ao Senhor, muito nos ajuda a entender a anamnese que dizemos em toda Missa e este preciosíssimo versículo do Salmo mencionado.

“… Amamos e temos medo da Sua vinda.

Será que amamos? Ou amamos muito mais nossos pecados? Odiemos, portanto, estes mesmos pecados e amemos

Aquele que virá castigar os pecados.

Ele virá, quer queiramos, quer não.

Se ainda não veio, não quer dizer que não virá.

Virá na hora que não sabes; se te encontrar preparado,

não haverá importância de saberes…

Porque és injusto, não será justo o juiz?

Ou porque és mentiroso, não será veraz a verdade?

Se queres, porém encontrar O Misericordioso, sê tu misericordioso, antes de Sua chegada: perdoa, se algo foi feito contra ti, dá daquilo de que tens em abundância.

Donde vem aquilo que dás, não é Dele? Se desses do que és teu, seria liberalidade, quando dás do que é Dele, é devolução.

Que tens que não recebeste? (1 Cor 4,7).

São estes os sacrifícios mais aceitos por Deus:

Misericórdia, humildade, louvor, paz, caridade.

Ofereçamo-los com confiança e esperemos a vinda do juiz que julgará o orbe da terra com equidade, e os povos em sua verdade

(Salmo 95,13)”.

 

Ele veio, vem e virá.

Veio à primeira vez, virá pela segunda: glorioso!

Enquanto Ele não vem estamos alegremente vigilantes, em oração e ação. Comprometidos com Sua chegada.

Quando? Não sabemos!

Nem nos cabe saber, somente O Pai o sabe.

Importa que estejamos preparados.

 

Caminhando para o final de mais um ano, é sempre tempo fecundo de avaliação…

ü     Como estamos preparando a vinda do Senhor?

ü     Quais os sacrifícios agradáveis ao Senhor que se notabilizam em nossa vida?

ü     O que precisamos colocar em ordem para que a vinda do Senhor não nos surpreenda?

 

Encerro com o refrão do canto pós-comunhão da Missa de hoje:

“Vigia esperando a aurora,

“Qual noiva esperando o amor.

É assim que o servo espera

A vinda do seu Senhor…”

 

 

 

criado por peotacilio    23:27 — Arquivado em: Reflexões, atividade pastoral

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