Pe. Fabrício, mantenha acesa,
em teu coração, a chama profética!

Na alegria do Tempo Pascal, faço a Homilia da Primeira Missa do Neo Sacerdote, Pe. Fabrício.
Tão grande a responsabilidade, tão grande minha alegria!
No Evangelho de hoje, no sinal realizado por Jesus, a multiplicação dos pães, é um anúncio antecipado da Celebração da Eucaristia.
Quando verdadeiramente celebrada, acreditada, na vida deve ser prolongada, com a promoção da vida e da dignidade, a fim de que ninguém seja privado do pão, da alegria, de modo que não haja necessitados entre nós.
Na Primeira Leitura contemplamos o início da vida da comunidade, os primeiros e corajosos passos dos apóstolos no anúncio, no testemunho do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e na alegria de sofrer por Ele.
Todo Sacerdote, pelo Sacramento da Ordem torna-se por excelência o Homem da Mesa da Palavra, o Homem da Mesa do Altar Sagrado e o Homem da comunhão com as mesas quotidianas, para que nelas não falte o pão de cada dia!
O Lema da tua Ordenação Diaconal nos trouxe a Palavra do profeta Jeremias: “Tu me seduziste e eu me deixei seduzir”. O Lema da tua Ordenação Presbiteral nos diz: “O amor não cansa e nem descansa”, inspirado no grande São João da Cruz.
Pe. Fabrício, que você seja um Profeta Jeremias de nossos tempos, de amor incansável e incondicional por Deus. Eternamente seduzido pelo amor divino, mantendo acesa a chama e o ardor profético.
Mas o que é ser um Sacerdote profeta em nosso tempo?
Ensaio algumas breves respostas, que você poderá completar com a própria vida e com o ministério com o qual Deus te agraciou, fazendo reacender a mesma chama no coração daqueles que O Senhor já te confiou e há de confiar.
Ser profeta é:
Ù Antes de tudo, um dom de Deus, uma resposta humana. A missão profética não é iniciativa da Igreja, tão pouco nossa, mas do Espírito Santo. Os profetas surgem onde e quando menos esperamos.
Ù Ser ungido de Deus, unindo o culto à prática da justiça, constituído por Deus “para arrancar e demolir, para destruir e abater, para edificar e plantar (Jr 1,10)”.
Ù Agir a partir de um encontro decidido, marcante e apaixonado por Cristo, portador de uma fé convicta, cultivando profunda intimidade com os mistérios divinos.
Ù Permanecer na escola do Amor. Aprendizes do Mestre e de tantos testemunhos dos mártires e profetas de todos os tempos.
Ù Ser aquele que acolheu, antes de anunciar, a Semente do Verbo, falando antes com a vida e depois com as palavras, para que sua profecia não seja um alienante contra testemunho.
Ù Cultivar a coerência necessária entre a fé e a vida.
Ù Estar plena e permanentemente aberto à vontade de Deus.
Ù Ser anunciador de uma redenção radical do Povo de Deus, levando-o a purificação de todas as suas infidelidades.
Ù Ser como os pobres e os humildes do Senhor, em constante educação da fé, em atitude de conversão do coração.
Ù Estar revestido da autoridade divina e jamais se enamorar com o autoritarismo, seja de que ordem for.
Ù Ser portador da inquietude missionária, rezar todos os dias para manter acesa a chama do profetismo em seu ministério, renovando sempre a conduta de outrora, com invejável vigor (cf. Ap 2,5).
Ù Ser portador e testemunha da gratuidade do amor divino alimentada na oração e na escuta da Palavra de Deus, em diálogo aberto e sincero, confiando a Deus suas inquietações, angústias, preocupações, alegrias, certezas, esperanças…
Ù Irradiar e testemunhar a alegria de ser Igreja; uma Igreja santa e pecadora, tudo fazendo para torná-la mais santa…
Ù Ser a voz de Deus no aqui e agora, em constante sintonia e abertura para captar o sopro do Espírito, agindo como mediador e porta voz de Deus.
Ù Saber calar para que a voz de Deus possa ressoar.
Ù Ter uma voz intrépida a denunciar o que contraria e uma voz incansável a anunciar o mundo querido por Deus.
Ù Falar com a autoridade Daquele que o envia, portanto, é saber escutar, aprender e acolher a voz de Deus, para que todo povo tenha vida.
Ù Ser, num mundo marcado por ruídos e barulhos ensurdecedores, o homem do silêncio que gera o novo.
Ù Nutrir-se do Pão da Vida no Sacrifício Eucarístico para ser no mundo sinal da misericórdia divina, que se torna visível no cumprimento do amor ao próximo.
Ù Ser mensageiro de um anúncio que não envelhece, não perde a pertinência e atualidade.
Ù Ser testemunho de profunda espiritualidade, que só pode brotar de um coração sedento de humanidade.
Ù Agir num lugar concreto e no quotidiano da vida, no chão da realidade.
Ù Arriscar a vida contra toda incompreensão, solidão, abandono, perseguição…
Ù Não se intimidar na luta incansável contra a idolatria.
Ù Empenhar-se na luta pela libertação integral da pessoa e de todas as pessoas
Ù Não se deixar devorar pelas estruturas de morte que devoram a vida.
Ù Ser, por excelência, homem da esperança divina contra toda falta de esperança humana.
Ù Possuir uma sexualidade integrada e integradora, de bem consigo e com todos.
Ù Estar antenado, plugado, sempre acompanhando a conjuntura atual com renovado compromisso na construção de um projeto social novo, contra toda forma de exclusão e empobrecimento em constante amadurecimento crítico.
Ù Buscar respostas para os desafios, não se conformando diante dos mesmos, procurando a libertação de todo mal, de toda e qualquer forma de eliminação da vida…
Ù Não deixar perder o valor sagrado da vida diante dos avanços da biotecnologia, amando e defendendo a vida, desde a concepção até seu declínio natural.
Ù Comprometer-se incansavelmente com a juventude que se degrada e se elimina – “juventude uma opção que não podemos deixar de fazer”.
Ù Promover o cortejo da vida (caminho da esperança, ressurreição, transformação do choro de morte na alegria da vida), em contraposição aos cortejos de morte (sem esperança, fome, analfabetos, excluídos, drogados, vazios de sentido existencial, relativismo etc.).
Ù Ser um poeta que sonha, mas que não sonha só, porque é parte de um povo que a Deus se consagra. Como poeta escreve a poesia e o canto de um mundo novo, onde todos possam viver como irmãos e filhos de um mesmo Pai.
Dar testemunho do amor de Deus, sobretudo pelos empobrecidos.
Peçamos ao Pai que faça de ti, Pe. Fabrício, um sacerdote profeta, pois, sem ele o povo perde o rumo de sua caminhada, perde os seus horizontes e mergulha num abismo de mediocridade, num deserto de esterilidade, num oceano de desumanidade, num lamaçal de atrocidades…
Ø Quando se cala a voz do profeta campeia a força dos interesses falsos e impuros, chegando ao absurdo de não se ter vergonha da imoralidade e da absoluta perda da sanidade mental, espiritual, intelectual, psicológica …
Ø Quando se cala sua voz, inaugura o permissivismo, o relativismo em que tudo é permitido até mesmo a eliminação da vida. Anuncia-se a morte de Deus para a proliferação de deuses. E a humanidade não pode ter futuro prescindindo de Deus.
Ø Quando se cala sua voz irrompe a escuridão, instaura-se o caos.
Ø Quando se cala sua voz robustece e multiplica a infidelidade e a idolatria.
Finalizo lembrando nosso Padroeiro em um de seus memoráveis sermões:
“Quem está repleto do Espírito Santo fala várias línguas.
As várias línguas são os vários testemunhos sobre Cristo, a saber:
A humildade, a pobreza, a paciência e a obediência;
Falamos estas línguas quando são as obras que falam.
Cessem, portanto, os discursos e falem as obras.
Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras.
Por este motivo o Senhor nos amaldiçoa como amaldiçoou a figueira em que não encontrara frutos, mas apenas folhas”.
Diz São Gregório:
“Há uma Lei para o pregador: que faça o que prega.
Em vão pregará o conhecimento da lei,
quem destrói a doutrina
por suas obras.”
Nossa gratidão e súplica a Deus para que você, Pe. Fabrício,
pela Palavra e pela vida, seja um Sacerdote Profeta!
Pe. Fabrício como disse Santo Anselmo:
“Que desejando a Deus O procure;
O procurando O deseje;
Que O amando, O encontre
E O encontrando, O ame sempre”!
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Para sempre seja louvado!

PS: a definição do ser profeta é encontrada no post - “que se reacenda em nós a chama profética” de 31/01/09, e que retomei com enfoque de uma primeira Missa e o Ministério Presbiteral.