30.3.09
A CRUDELÍSSIMA MORTE OU A PLENÍSSIMA VIDA?
A CRUDELÍSSIMA MORTE OU A PLENÍSSIMA VIDA?
Aproxima-se a Semana Santa. Na Liturgia da Palavra do 5.º Domingo da Quaresma, refletimos sobre a Hora na qual Jesus Se prepara para ser glorificado, não fugindo da cruz, onde testemunhará, com Sua entrega, a expressão máxima do amor de Deus.
Chegando a Hora, como ainda não o era nas Bodas de Cana, com Seu Sangue derramado, sela a Nova e Eterna Aliança de Amor, de Deus com a humanidade… Do coração trespassado jorra a tinta do amor: Seu Sangue, para escrever no coração da humanidade esta aliança irrevogável, esta reconciliação tão desejada.
A Hora de Jesus possibilita-nos eternizar nossa vida. Concede-nos força para a hora presente, leva-nos a alcançar a Hora da eternidade do amor divino…
Ressoa em nosso coração Suas próprias palavras, em que transborda toda Sua humanidade dizendo – “Agora sinto-Me angustiado..” (João 12,27), e a Carta aos Hebreus – “Cristo, nos dias de Sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas Àquele que era capaz de salvá-Lo da morte. E foi atendido, por causa de Sua entrega a Deus. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus, por aquilo que sofreu” (Hb 5, 7-8).
CONTEMPLEMOS JESUS:
VERDADEIRAMENTE HOMEM, VERDADEIRAMENTE DEUS!
O Papa Leão Magno (séc V), assim se referiu a Jesus:
§ “Como poderá ficar fora da comunhão com Cristo, quem recebe Aquele que assumiu a sua própria natureza e é regenerado pelo mesmo Espírito, por obra do qual nasceu JESUS?
§ Quem não reconhece Nele as fraquezas próprias da condição humana?
§ Quem não vê que alimentar-se, buscar o repouso do sono, sofrer angustia e tristeza, derramar lágrimas de compaixão, eram próprios da condição de servo?” (L.Horas p.281 – Vol.II).
§ Contemplar Seu amor, Sua humanidade, Sua divindade, Sua entrega por amor na Cruz, Sua crudelíssima Morte na cruz por causa de nossa infidelidade, crueldade, pecado…
Há uma breve e questionadora afirmação do Papa Bento XVI, quando ainda Cardeal Joseph Ratzinger, de nossa responsabilidade diante da morte de Jesus, do Deus Homem, Homem Deus:
“Deus morreu e nós O trespassamos. Nós O matamos encerrando-O invólucro deteriorado das idéias rotineiras, exilando-O em forma de piedade sem conteúdo ou em preciosismos arqueológicos; matamo-Lo pela ambigüidade da nossa vida que lançou um véu obscuro sobre Ele”
Dito de outra forma, assim o interpreto, Deus morreu e nós O matamos.
QUANDO?
§ Quando O fechamos no revestimento apodrecido das idéias superficiais, nos pensamentos sem densidade de conteúdo evangélico, desacompanhado do germe do novo, mas de braços dados com a falta de sinceros e vitais compromissos éticos… Assim como disse o Papa, “O encerramos no invólucro deteriorado das idéias rotineiras”
§ Quando não nos deixamos transformar por Sua Palavra, tão lida, ouvida e conhecida e tão pouco vivida… Para além do conhecimento e acesso, a Palavra deve ser vivida… “O exilamos em forma de piedade sem conteúdo”.
§ Quando lançamos Deus para fora de nossa existência, quando nossa vida de oração fica a desejar, ou ainda, quando expressa é em tantas horas e momentos, mas sem conteúdo de vida, sem testemunho. Belas liturgias, como há de ser sempre, mas sem belas ressonâncias na vida, para que se tornem mais belas, mais bonitas também…
§ Matamos Deus pelos preciosismos arqueológicos, sofisticados estudos que não levam a novos renascimentos, ao compromisso com o Reino. Quando se procura conhecer o Homem Jesus no Seu tempo, sem a acolhida da Boa Nova de Seu Evangelho que transcende todo tempo – Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre!
§ Matamos Jesus pela ambigüidade de nossa vida! Ambigüidade percebida tristemente na incoerência do que se crê e do que se vive; incoerência entre propósitos e atitudes; divórcio e distanciamento da fé professada e da fé vivida.
§ Matamos Jesus quando perdemos a característica própria do fermento que somos na massa. Não mais levedamos o mundo com o fermento do amor.
§ Quando deixamos de ser sal, deixamos de dar o sabor de Deus à vida, porque somos muitas vezes seduzidos por outros sabores que a vida nos oferece.
§ Quando nos empanturramos do pão que passa, empanzinados pelo consumo materialista que não nos satisfaz, porque preterimos O Pão da Vida, desprezando-O ou menosprezando Sua força que nutre toda a nossa vida.
§ Quando lançamos véu obscuro sobre Ele. Pode ser que não vejam em nós, Cristo e Sua luz, porque deixamos morrer a luz que no batismo foi acesa. Apaga-se a luz quando perdemos a esperança, quando não revitalizamos a fé, não mantemos acesa a chama da caridade…
Mais uma Semana Santa. Não entremos no cortejo dos que promovem a crudelíssima morte de Jesus. Sejamos, portanto, atraídos por Ele, tenhamos a coragem de ser como grão de trigo que morre ao cair na terra, para não ficar só e produzir muitos frutos.
Procuremos dar nossa resposta de amor ao Deus de Amor, assumindo nossa cruz, diremos um sim ao amor autêntico.
Nossas horas terão densidade de vida, sentido, esplendor… se assumirmos a grande Hora de Jesus, na radicalidade da proposta, de tomar nossa cruz de cada dia para segui-Lo;
Vivendo cada hora até a hora de nossa morte, quando pelo mérito da Hora de Jesus, poderemos adentrar na eternidade, vivendo intensamente e eternamente a Hora de Deus, contemplando-O, ao lado da Rainha dos céus, dos seus santos, santas, e anjos!
Concluindo, digo que viver é não promover a crudelíssima morte de Jesus, ainda hoje. É tudo fazer, tudo empenhar para que Ele não mais morra em cada criança famélica, abandonada, desassistida, vítima da prática abortista…
É empenho sincero com a vida, com a realização do Reino, superando todo e qualquer sinal de morte que nos cerque: analfabetismo, fome, nudez, violência, conflitos étnicos, gastos com armas, exploração de toda forma, nome, conteúdo e gênero, destruição do meio ambiente…
Chorar a crudelíssima morte de Jesus ou fazer da mesma, compromisso com a sacralidade da Vida, em sinais e gestos pascais, como grão de trigo que morreu para produzir frutos?
Depende de cada um de nós!
A crudelíssima morte ou a pleníssima vida como Ele nos propôs!


criado por peotacilio
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