28.2.09
QUARESMA: TEMPO FORTE DE ORAÇÃO
QUARESMA: TEMPO FORTE DE ORAÇÃO
A oração, acompanhada do jejum e da esmola são os três exercícios quaresmais que devem ser mais intensificados na quaresma. Reflitamos sobre o primeiro: a oração.
Evidentemente que não é só na quaresma que se deve orar. Orar sempre, em todas as situações e em todos os tempos: adversos e favoráveis; fracassos anunciados, vitórias pré-anunciadas; na agitação e na tranqüilidade; na alegria e na tristeza; na angústia e esperança; no tempo dos sonhos para que não cedam lugar a pesadelos; tempo da presença mais percebida para percepção mais aguçada quando tudo parece desolação…
É sempre tempo de orar… Orar? Mas o que é oração? Já escrevi algo anteriormente, mas acredito que esta homilia do século IV, de Pseudo-Crisóstomo, não pode ficar nas mãos de alguns poucos, tão pouco permanecer no século que foi escrita. Ela transcende seu tempo. Poderia ter sido escrita exatamente agora, sobretudo por alguém que descobriu que a amizade com Deus é sempre ocasião propícia e frutuosa para a oração.
Ø Tentarei apresentar alguns trechos, não sei se conseguirei. Se não conseguir é porque foi impossível, mas terá sido possível ter oferecido ao leitor mais uma bela dose, e que dose, de água cristalina!
“A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem interrupção.
Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas – como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo – é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas as nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do Universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível.
A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens. Pela oração a alma se eleva até os céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que. Chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.
A oração é venerável mensageira que nos leva à presença de Deus, alegra a alma e tranqüiliza o coração. Não penses que nessa oração se reduza as palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o apóstolo: Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis (Rm. 8,26).
Semelhante oração, quando o Senhor a concede a alguém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador que abrasa o coração.
Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça. Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplendido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo de sua presença” (Lit.Horas. Vol II p.58-9 – os grifos foram feitos por mim).
Concluindo: A oração como diálogo implica abertura, recolhimento, silêncio, escuta, confiança, intimidade…
Vivendo intensamente a oração nossas atitudes serão portadoras de um tempero novo: O sal do amor de Deus. Somente assim nossas obras a Ele tornar-se-ão agradáveis. A oração contínua, confiante, persistente, acompanhada da atitude de humildade permitirá que nossas obras se tornem agradáveis ao Senhor. Não basta fazer algo, é preciso fazer com amor nutrido pela oração, que é a expressão de nossa amizade sincera com Deus.
Sendo a ela luz da alma, se nos pusermos em constante atitude de oração não saberemos o que venha a ser escuridão, porque por Deus iluminados seremos. Sendo Ele a luz do mundo prometeu que todo aquele que o seguir não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida…
A alma nos eleva até os céus e nos une perfeitamente ao Senhor, em perfeita comunhão. Ser elevado aos céus diante do Senhor, num encontro de amor e ternura. Sentir-se por Ele acolhido, amparado, acariciado, protegido… Saborear sua divina amorosa companhia, e creio não haver outro jeito de sentir a presença de Deus…
A oração como mensageira, uma venerável mensageira que nos coloca na presença de Deus. Sentir-se-á distante de Deus, ou sentirá sua ausência quem não se puser em atitude de oração. Deus nos deixou a oração como forma de estarmos em perfeita sintonia e comunicação com Ele. As páginas bíblicas têm inumeráveis passagens em que Ele se revela sempre pronto, solicito aos nossos clamores, quer no Antigo Testamento como no Novo…
Se quisermos falar com Deus…. Sempre haveremos de querer, se a descobrimos como o autor da homilia acima o disse… Se descobrirmos que a oração não é mera repetição de palavras, tão pouco um monólogo em que tão apenas nós falamos, não deixando nem dando tempo para que Deus possa falar.
A oração como diálogo com Deus, luz de nossa alma, abraço divino, sal que dá gosto a tudo que fazemos há que ser e é tão necessário quanto o ar que respiramos.
Respiramos para a não morte biológica. Oramos para além da não morte biológica, oramos para a vida espiritual acompanhada da alegria e da vida em plenitude! Oramos para oxigenar a alma e reencantar a vida!


criado por peotacilio
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