Pe. Otacilio F. Lacerda

Artigos, textos e poesias para meditação, reflexão.

6.11.09

Indefinibilidade do amor…

Indefinibilidade do amor…

 

“O amor não se define, vive-se.

Importa amar para ver claro.

E se quisermos que algum outro veja claro, a única estratégia eficiente é amá-lo sem condições, como a nós mesmos.

Deus é aquele que ama primeiro: ama-nos antes de nós mesmos…”

 

Assim conclui a reflexão do Missal quotidiano, quando se proclamou recentemente um trecho da Carta de São Paulo aos Romanos (13,8-10).

Estas palavras me reportaram imediatamente ao próprio Paulo que disse: ”a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13,10), e ao incomparável e indizível texto sobre o amor, dele mesmo, que encontramos na Primeira Carta aos Coríntios 13.

Se o leitor não a conhece, ousaria dizer que, nenhum momento há de se perder.

Um texto indiscutivelmente inspirador de tantos outros!

Fonte inspiradora para cristãos e não cristãos!!!

 

Remete-nos a Luiz Vaz de Camões (1524-1580), grande poeta da língua portuguesa e sua ímpar poesia:

                     “Amor é fogo que arde sem se ver;                       
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;


É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Como o amor é possuidor de indefinibilidade nenhuma palavra é preciso acrescentar…

Imediatamente ouvirei “Monte Castelo”, do grupo Legião Urbana, que fez uma bela releitura musical dos textos acima, e que também há de ficar para sempre!

Bíblia, poesia e música:

Que nossa alma se eleve para amar, sem procura de definições conceituais.

Amar na bela e plena medida como Cristo amou e nos ama…

Amor não se define, vive-se!!!

 

Contemplemos o amor que se concretiza

Em múltiplas expressões e relações.

Contemplemos o amor que se eterniza

Em versos, sonetos e belas canções.

Contemplemos o amor que nos eterniza

Porque condição e meta do existir.

Contemplemos o amor, que nos nutre

E fortalece para tudo que há de vir!

Ah! indefinibilidade do amor!

Ah! inesgotabilidade do amor!

Sobretudo o amor de Nosso Senhor!

Possuidor do mais belo esplendor!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

criado por peotacilio    16:33 — Arquivado em: Sem categoria

A Paradoxalidade do amor de Deus…

Reflexões sobre o mandamento maior: o amor

A paradoxalidade do amor de Deus:

Amar na contramão da história…

 

Reflitamos sobre a compaixão, amor misericordioso de Deus, que nos chama e envia para sermos sinal desta compaixão, no trabalho da Messe, no cuidado do rebanho (Mateus 9,36-10,8).            

O cristão é, fundamentalmente, alguém que descobriu que Deus o ama. Por isso, enfrenta a cada dia o bom combate da fé com serenidade e alegria. Possui uma esperança que brota da certeza fundamental:

O Amor de Deus.

O amor de Deus deve ser para nós o grande tesouro de que nos fala o Evangelho de Mateus 6,19-23:

“… ajuntai tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem,

nem os ladrões assaltam e roubam…

Pois onde estiver teu tesouro, aí estará também o teu coração”.

Condiciona e fundamenta toda sua vida nesta certeza.

A alegria de quem encontrou e experimentou o amor de

Deus o faz discípulo missionário, Sal e Luz:

                               Numa palavra – Eucarístico.              

Com a Palavra, Jesus Cristo revelou o Deus Bíblico:

Deus de amor, pois O Espírito do Senhor repousava sobre

Ele na mais perfeita relação de comunhão e Amor.

Refletir sobre o amor de Deus é embarcar na aventura da Aliança de Amor.

Não um amor qualquer, mas no exato sentido da

Palavra Amor, pois Deus é Amor.

Deus ama o Povo e o tem como Seu tesouro,

Sua propriedade e o constitui povo de sacerdotes e nação santa (Êxodo 19,2-6a).

Ama apesar de toda infidelidade, traição, idolatria, abandono, morticínios, sacrifícios inúteis, abominações, reclamações sem fundamento, provação, provocação, lamentações infundadas, ingratidão, atrocidades cometidas, amor não correspondido…

De que Amor se fala?

O Amor de Deus é o amor que ama

na contramão da história, daí sua paradoxalidade…

Ama um povo pequeno, aos olhos humanos, absolutamente desprezível, débil, frágil e insignificante.

Encarna-Se para redimi-lo e não somente este povo,

mas toda a humanidade em Cristo Jesus, e perpetua

Seu Amor na presença do

Espírito Santo, não nos deixando órfãos!

E, por que não corresponder na exata medida deste Amor?

Por que não fazer do Amor de Deus e de

Sua presença em nós o bem maior que se possa querer e ter, afinal Ele habita em cada um de nós como templo Seu:

O mais belo hóspede!

Vejamos os tantos modos de falar sobre o amor de Deus a partir de apenas uma simples vogal:

Idealizador,

Idílico, Ilimitado, Ilimitado,

Ilógico, Iluminador, Ilustre, Imaculado,

 Imortal, Impecável, Imperante, Imperdível,

Imperturbável, Implacável, Impressionante, Imutável, Imprescindível, Inalienável, Inalterável, Incandescente, Incansável, Incendiário, Incessante, Incomensurável, Incomparável, Incondicional, Inconfundível, Incontestável, Incorruptível, Indelével, Indiscutível, Indispensável, Indissociável, Incrível Indubitável, Indulgente, Inédito, Inerente, Inesgotável, Inesquecível, Inestimável, Inexplicável, Infalível, Infiltrante, Infinito, Inflamável, Inigualável, Iniludível, Inimitável,

Inovador, Inqualificável, Inquebrável, Insaciável,

Insigne, Inspirador, Insubstituível, Inteligente,

Interminável, Íntimo, Inusitado, Inviolável,

Irradiante, Irrecusável, Irrenunciável,

 Irresistível, Irrestrito, Irretocável,

Irreversível, Irrevogável,  

Irrigador…

A missionariedade consistirá em corresponder ao Amor de Deus.

No verdadeiro encontro e apaixonamento por Cristo e Seu Evangelho estaremos, como João Batista, vivendo nossa vocação profética, ontem, hoje e sempre.

Contemplemos na Cruz o

Mistério do encontro/presença de um

Deus que é Amante (Pai),

Amor (Espírito Santo),

Amado (Filho), como nos falou

Santo Agostinho.

 

PS. Reeditado e repostado.

criado por peotacilio    15:00 — Arquivado em: Homilias, Reflexões, atividade pastoral

5.11.09

As frestas de nossos lares e os raios do Espírito!

As frestas de nossos lares e os raios do Espírito!

 

Sopro, raios, luzes, chama…

Digamos qual nome for, são formas de dizer, quão preciosa é a presença do Espírito Santo em nossos lares, que são pequeninas Igrejas Domésticas.

O primeiro raio é a contemplação da Sagrada Família:

Para que desta grande escola aprendamos as sagradas lições de José e Maria, mistérios que santificam nossas famílias!                         

 Confiança em Deus, abertura e diálogo para compreensão dos mistérios divinos e vivenciá-los:

 “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim Tua Palavra”; Disponibilidade; humildade; mansidão; ternura; temor divino; abertura para a manifestação da graça de Deus; pertença ao povo de Deus, acompanhada da vivência e prática religiosa; coragem para ter a alma transpassada, assumindo a dimensão pascal da fé, mistério de morte e Ressurreição…

O segundo raio é a contemplação do Mistério da Comunhão Trinitária:

Mistério de amor, comunhão, doação, plenitude de vida, unicidade que não leva a perda da identidade, garantia de plena felicidade…                               

Terceiro raio vem da Mesa da Eucaristia:

Banquete de amor e vida, comunhão e solidariedade com os empobrecidos.

“A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço do céu que se abre sobre a terra, e os raios da Jerusalém Celeste invadem as sombras da história e vem iluminar nossos caminhos” (Papa João Paulo II). A família que se nutre da Eucaristia há de experimentar a cada dia um pedaço deste céu que se prolonga na mesa de nossos irmãos.

Por último, o raio do Espírito é pertencer e ser Igreja:

A família tem que romper o limite de suas paredes; abrir-se para a vivência comunitária, participar da alegria da construção do Reino de Deus, redimensioná-la pelos laços da fé e prática da Palavra de Deus.

Cada família, como pequena Igreja Doméstica, está inserida na Igreja de Cristo que é seu Corpo, tendo-o como Cabeça.

A Boa Nova do Ressuscitado deve determinar os pensamentos e atitudes de nossas famílias, de modo que falar de divórcio, infidelidade, filhos distantes e estranhos aos próprios pais, aborto, serão apenas lembranças indesejáveis das tempestades que tentaram a destruição avassaladora da família, ora com êxito indesejável, outras vezes não!             

 

A verdadeira sabedoria consiste em abrir as frestas para que os raios do Espírito possam adentrar nossos lares, iluminando, aquecendo, pois como disse Zacarias, Deus traz saúde em Seus raios:

 Mas para vós que temeis o Meu nome, brilhará o sol de justiça que tem a cura em seus raios” (Ml 3,20).

Façamos da família um pedaço do céu, ainda que frágil sinal, mas indispensável espaço da convivência, do crescimento e amadurecimento para a grande comunhão universal e eterna.

 

PS: Publicado no jornal “Voz Viva” – Paróquia Santo Antônio de Gopoúva – Diocese de Guarulhos. Reeditado para o blog.

 

criado por peotacilio    23:10 — Arquivado em: Reflexões, atividade pastoral

Aprendizes da linguagem do Espírito

Aprendizes da linguagem do Espírito

Chegando ao final de mais um ano de pastoral, inaugura-se o tempo de avaliação e planejamento, em vista do próximo ano. Muito foi feito e há muito por fazer.

 

Dois anos nos separam do grande acontecimento da Igreja da América Latina e do Caribe: A Conferência Episcopal em Aparecida-SP, mas não das Conclusões contidas no Documento Final que deve estar nas mãos de todos Agentes de Pastoral.

 

Indubitavelmente valioso para estudo e aprofundamento, como discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que Nele nossos povos tenham vida.

 

Uma vez acolhido, é preciso que com muita criatividade o interpretemos, em cada realidade, buscando caminhos para o verdadeiro discipulado e missionariedade.

 

Fomos desafiados pela Conferência a uma grande missão continental, que não conhecerá ocaso, porque a missão do Senhor desabrocha na aurora da eternidade…

 

Não estamos sozinhos neste desafio, pois somos enriquecidos por preciosos e maravilhosos dons de Deus, como disse o Papa São Clemente no século I:

“… vida na imortalidade,

esplendor na justiça,

verdade na liberdade,

fé na confiança,

temperança na santidade…”,

Numa palavra, o dom maior do Espírito Santo que acompanha e ilumina os passos da Igreja.

A vida das primeiras comunidades é e será sempre um projeto a ser construído.

Como aprendizes da linguagem do Espírito, precisamos voltar ao primeiro amor das Comunidades, não como saudosismo inconsequente, mas como compromisso evangélico:

“Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, a comunhão fraterna, a fração do pão e às orações” (Atos 2,42).

Há de se intensificar a vivência comunitária aprofundada e enraizada na Comunhão da Santíssima Trindade, modelo da verdadeira comunidade, nutrindo-se do Pão da Palavra e do Pão da Eucaristia, expressa na comunhão e participação.

 

Construir comunidades como espaço privilegiado onde se viva:

 

ü     A acolhida amorosa, dando ao seu membro o sentido de pertença, superando o anonimato e individualismo;

ü     A experiência concreta de Cristo e Sua Igreja;

ü     O amadurecimento no enfrentamento das crises diversas por que se passa;

ü     O fortalecimento espiritual (fé/esperança/caridade);

ü     A abertura e fortalecimento dos diversos ministérios;

ü     A solidariedade, fazendo da comunidade uma escola da paz, justiça e amor;

ü     A formação permanente para o discipulado nos mais diversos aspectos (bíblico-teológico, humano/afetivo, espiritual, compromisso sócio político…);

ü     O revigoramento e irradiação missionária que garanta ao cristão leigo (a) uma sadia inserção no mundo, logo ela deve ser como um Centro de formação permanente:

ü     A união de esforços entre as paróquias na formação permanente;

ü     A valorização da formação em nível diocesano e em outros níveis (Escola de Ministérios, Encontros Diocesanos, outros espaços formativos) etc.

 

À luz deste Documento poderemos fazer uma valiosa avaliação, invocando sempre as luzes do Espírito Santo, acendendo em nossos corações a claridade de Sua luz.

Que a caridade do Espírito inspire nossa mente e nosso coração.

Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos

Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo

 

PS: Publicado no jornal “Voz Viva” - Paróquia Santo Antônio de Gopoúva – Guarulhos.

Reeditado para o blog. 

criado por peotacilio    23:01 — Arquivado em: Editorial Jornal Voz Viva, Reflexões, atividade pastoral

3.11.09

A morte e o Cálice do Senhor…

REFLEXÕES SOBRE A MORTE E A VIDA ETERNA

                                            

 

 

A morte e o Cálice do Senhor…

 


Sinto ressoar o Dia de Finados…

Ressoa a Liturgia da Palavra na Missa Proclamada, a homilia que fiz.

Não faço homilia para os outros apenas, também a faço para mim.

A morte inexoravelmente nos acompanha.

Há algumas palavras do Missal dominical que são imperdíveis:

– “… no fundo dessa nossa dinâmica de vida e esperança se oculta, sempre à espreita, o pensamento da morte; um pensamento ao qual não nos habituamos e que queríamos expulsar. No entanto, a morte é a companheira de toda nossa existência, despedidas e doenças,

dores e desilusões são dela sinais a nos advertir.

A morte permanece para o homem um mistério profundo.

Mistério cercado de respeito também pelos que não crêem…

Para o cristão, a morte não é o resultado de uma luta trágica

que se deva afrontar com frieza e cinismo.

A morte do cristão segue as pegadas da morte de Cristo:    

Um cálice amargo, porque fruto do pecado, a beber até o fim,

porque é a vontade do Pai,

que nos espera de braços abertos do outro lado do limiar;

morte que é uma vitória com aparência de derrota:

Morte que é essencialmente não morte:

Vida, glória e ressurreição.

A despedida dos fiéis é acompanhada da celebração

Eucaristia, memória da morte

de Jesus na cruz e penhor da sua ressurreição…

Cristo espera eternamente com os braços abertos;

o homem que optou contra

Cristo, será queimado eternamente por aquele amor que repeliu.

O homem que se decide por Cristo

encontrará no mesmo amor a plena e infinita alegria…”

(cf p. 1373-4).

Morte! Morte!! Morte!!!

Ressurreição! Ressurreição!! Ressurreição!!!

Última palavra para os que crêem!

Palavra que nos alegra o coração, ainda que de vez em quando se encontre estilhaçado, mas ancorado no porto seguro da Ressurreição.

Não existimos ao sabor dos ventos fúnebres, mas pelo vento suave,

brisa que nos traz a terna mensagem da eternidade:

A vida venceu a morte!

Viver e celebrar a vida no cálice da morte e Ressurreição do Senhor, para que do mesmo cálice alcancemos o inebriamento da alegria da eternidade.

Êxtase que nos renova e encoraja no inadiável e instransferível bom combate da fé, até que tenhamos de nos apresentar para receber a coroa da glória.

Façamos tudo por merecê-la…

Agora deixemos o grande Bispo Santo Agostinho falar…

Dispensa maiores comentários:

“A morte não é nada.
Apenas passei ao outro mundo.
Eu sou eu.
Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.

Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou,
continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora de teus pensamentos,
apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe,
somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem…
Redescobrirás meu coração.
E nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e,
Se me amas,

não chores mais”

No Cálice do Senhor celebramos o mistério de Seu amor:

Mistério de Sua paixão e morte, mas no mesmo Cálice saboreamos e nos inebriamos, incomensuravelmente, de alegria, porque é o Cálice da eternidade.

Beber do Cálice é beber o amor de Deus, para que possamos vivenciá-Lo e saboreá-Lo plena e eternamente no Céu.

Com a Palavra, o Próprio Senhor nas páginas dos Evangelhos:

“Quem comer Minha carne e beber Meu sangue,

permanece em Mim e Eu nele.

Eu Sou o Pão Vivo, que desceu do céu:

Se alguém comer deste Pão, viverá eternamente, por isto

somos felizes, uma vez convidados e partícipes do

Banquete Nupcial do Cordeiro”

Como palavra última uma súplica:

Senhor, que participando do Teu Sagrado Cálice, saibamos comungar do Teu sacrifício, transformando os sinais de morte em sinais de vida.

Que bebendo do Teu Cálice, nossa morte em Tua morte vitoriosa, seja destruída.

Que os estilhaços, por ela provocados, como um vulcão em erupção,

Bebendo do Teu Cálice, fale bem mais forte do que morte,

O amor que conduz à Ressurreição!

Amém!

criado por peotacilio    15:52 — Arquivado em: Homilias, Reflexões, atividade pastoral

2.11.09

A fé na Ressurreição: Da finitude à plenitude

REFLEXÕES SOBRE A MORTE E A VIDA ETERNA

A fé na Ressurreição:

Da finitude à plenitude


Dedico esta reflexão a todos que choram  a partida de seus entes queridos.

Dedico àqueles que procuram juntar os pedaços, estilhaços de seu coração, em meio à dor e lágrimas.

Dedico àqueles que conseguem ver além da morte, com olhar pascal; que conseguem vislumbrar as fronteiras da eternidade pela fé, ultrapassando os limites da existência.

Morte, mistério que nos acompanha inexoravelmente.

Ressurreição que nos acompanha, muito mais que inexoravelmente!

Há algum tempo escrevi esta reflexão que me parece muito oportuna para esta semana em que rezamos e fazemos memória de todos aqueles que nos antecederam na glória dos céus.

A fé e a esperança na Ressurreição apontam para uma vida/existência no amor.

Quando enraizados no amor de Deus somos eternos.

A Ressurreição não é uma mera e pensada repetição da vida, ao contrário, é plenitude.

O que aqui começa lá se desabrocha na perfeição.

Entraremos numa novidade de vida.

Segundo o grande teólogo Tertuliano, (séc.II):

“A esperança cristã é a ressurreição dos mortos:

Tudo o que nós somos, o somos na medida em que acreditamos na Ressurreição”.

O horizonte da Ressurreição deve influenciar as nossas atitudes no tempo presente:

Não vivê-lo como evasão e nem tão pouco como simplesmente um fim em si mesmo…

Deve influenciar nossa oração, valores e atitudes…

A vida que não se acaba – Deus é o Deus dos vivos…

Um Deus que inaugura e eterniza uma relação conosco!

A fé cristã não tem dúvida quanto à incompatibilidade entre a fé na Ressurreição e na Reencarnação.

A fé na Ressurreição implica em estabelecer valores e verdades pelas quais pautamos nossa vida, porque neles acreditamos e nos consumimos; pelos quais somos capazes de morrer.

Não se perder entre verdades que passam e

Verdades que são eternas…

A eternidade deve ser alcançada na fidelidade e vigilância ativa, fazendo da oração expressão da ajuda divina e, ao mesmo tempo, fonte da solidariedade humana.

Na oração somos, por Deus, ajudados, assistidos, fortalecidos, para o mesmo fazer em relação ao próximo.

Numa palavra:

A oração é expressão da força de

Deus e da solidariedade humana.

Para finalizar reflitamos a beleza das palavras de Dostoievski, grande escritor russo do século XIX:

“Minha imortalidade é indispensável, porque

Deus não iria cometer iniquidade e apagar completamente o fogo do amor depois que este se acendeu para Ele em meu coração…

Comecei a amá-Lo e me alegrei com Seu amor.

Será possível que Ele me apague e minha alegria se transforme em nada.

Se Deus existe, também sou imortal”.

A inevitabilidade da morte pode ser para quem crê o mergulho na plenitude do amor de Deus.

A existência momentânea no amor (vida terrena) é existência eterna na plenitude do amor (céu).

Lá, na eternidade, enfim, contemplaremos Deus face a face.

Lá veremos o que aqui cremos de mente e coração.

Ressurreição:

O rompimento de nossa finitude para um mergulho na plenitude.

 

 

 

criado por peotacilio    17:16 — Arquivado em: Homilias, Reflexões, atividade pastoral

Alegremo-nos: Deus tem sempre a última Palavra!

REFLEXÕES SOBRE A MORTE E A VIDA ETERNA

 

Alegremo-nos:

 

Deus tem sempre a última Palavra!

 

Quantas vezes, como pastores, no múnus da pregação e consolação do Povo de Deus, somos desafiados; diante da mais inquietante experiência humana:

A realidade da morte.

Que esta reflexão possa ajudar quando diante dela nos colocarmos, seja de forma previsível ou imprevisível: Para além de toda dor, que Deus tem sempre a última Palavra!

Não tem a última palavra à aparente vitória de Jacó,

mas a permanente e eterna vitória de Deus.

Não têm da mesma forma, as inquietações; resistências frente aos desígnios divinos, mas a confiança inabalável na sua força, porque contra Deus não há por que, nem como resistir!

Não terá última palavra o desespero frente aos desafios da evangelização, mas a confiança na presença e sopro do Espírito a nós enviado:

“Eis que Eu estarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).

Deste modo não terão última palavra a mudez e surdez da humanidade, mas a alegre escuta e proclamação das maravilhas por Deus sempre realizadas.

Como também não tem a última palavra o isolamento e o peso da exclusão, mas a libertação e a integração/comunhão, na força da ternura de Jesus, que supera toda dureza/frieza e legalismo farisaico de todos os tempos.

Não terá última palavra a indiferença para com os pobres, sofredores, mas a compaixão que emana do Seu Sagrado Coração; que envia junto do Pai, operários para a vinha manifestando a solicitude de Deus, que não nos deixa sem pastores, excluindo todo sentimento de orfandade.

Contemplemos a Cruz e o lado trespassado de Jesus (Jo19,37).

Não contemplemos o aparente fracasso da cruz,

mas o gosto de vitória que emana da cruz:

“Todos nós devemos nos gloriar na cruz de Nosso Senhor” (Gal 6,14);

contemplemos a inevitabilidade do caminho da glória, que passa pela

Cruz Redentora de Jesus.

Não prevalecerão as lágrimas incontáveis e o lamento pela morte; que separam os casados; que dura e cruelmente também separam os amigos, mas a alegria da imortalidade alcançada; já experimentada na oração e comunhão dos santos, e que nos possibilitará um novo e eterno abraço, quando acolhidos pelos que nos antecederam na glória dos céus:

“É sentida por demais pelo Senhor a morte de Seus santos, Seus amigos” (Sl 115,15).

Não será eternizado o sono que nos impede de sermos acordados para Deus, porque acontecerá o mais difícil despertar:

O despertar do sono da morte que

Deus mais facilmente pode realizar, a partir da

Morte e Ressurreição de seu Filho.

A morte não será último horizonte, mas sim a glória da imortalidade que desconhece horizontes, pois mergulha na plenitude do amor de Deus.

Viver no céu é estar imerso no horizonte infinito do amor de Deus.

Em tudo demos graças a Deus, e como

Deus tem sempre a última Palavra,

meditemos nesta Palavra Divina:

“Alegrai-vos sempre no Senhor.

Repito: Alegrai-vos!

Não vos inquieteis com nada; mas apresentai a

Deus todas as vossas necessidades pela oração e pela súplica em ação de graças.

Então a paz de Deus, que excede toda a compreensão guardará os vossos corações e pensamentos, em Cristo Jesus” (Fl 4,4.6-7).

E, a Ele toda honra, glória e poder, pelos séculos dos séculos.

Amém!

 

PS: Publicado no jornal “Folha Diocesana” – Guarulhos – edição nº136.

criado por peotacilio    16:52 — Arquivado em: Homilias, Reflexões, atividade pastoral

Reflexão sobre a morte e a vida eterna…

O ministério do padre na hora mais difícil:

A hora da morte.

 

Finados: dia de recolhimento, oração e contemplação de nossa realidade penúltima, a morte; fortalecimento na fé sobre nossa realidade última, a VIDA ETERNA!

 

Quantas vezes nós, padres, somos chamados para rezar pelos falecidos e familiares. Muitas vezes anônimos e desconhecidos de nossas comunidades; distantes de nossos altares!

Quantas vezes são crianças revelando a dura realidade da dor que a morte provoca! Quantas vezes amigos, parentes, agentes!

 

Não há hora, dia, cansaço, compromissos, nem chuva ou sol que justifique nossa ausência. Ainda que de modo breve, uma breve mensagem da Palavra de Deus, um refrão, um canto, a água que nos lembra o batismo e comunica a presença divina. O olhar, o abraço, a terna acolhida.

 

A morte deixa um vazio; um silêncio; uma abertura para que a Palavra naquela hora seja semeada; plantada. Uma ferida, uma chaga a ser curada, com o bálsamo da oração, da esperança anunciada, pela Palavra proclamada.

 

Nós Presbíteros temos uma importância indescritível na vida daquela família ao redor do caixão, daquele corpo estendido, revelando a limitação da existência humana, levando-nos a reconhecer nossa limitação/finitude.

Padres enamorados por Cristo,

Homens da Palavra e do Pão;

arautos da Páscoa  Morte/Ressurreição,

sabem que a solidariedade vivida é caminho de salvação;

que a solidariedade naquele momento é o desabrochar

das forças para a vida continuar e a cruz retomar,

para que um dia possamos com aquele,

e com tantos outros que nos antecederam, novamente nos encontrar;

e a face divina, com os anjos e santos contemplar.

Um paciente terminal assim disse: 

“Abraço a morte, ela não é eterna. Quando nos encontramos com Deus, nos tornamos belos”.

Momento privilegiado, de acolhida e fortalecimento, para não deixar o medo do coração conta tomar.

Quem sabe momento para renovação da chama do primeiro amor, retorno à vida da Comunidade, participação perseverante no banquete da Eucaristia?

Nas Exéquias (celebração de encomendação dos fiéis falecidos), ou numa Missa de sétimo dia, nós, padres, temos uma oportunidade imperdível de acolhida, carinho e solidariedade.

É verdade que muitas vezes parecem não compreender nossos ritos, são participantes de “ocasião”. Que sejam!

Eis momento da graça, de favorável acolhida!

Manifestar a beleza de ser Igreja, de não estarmos nunca sós:

Nem na vida, nem na morte.

 

Também o acompanhamento pela comunidade depois da esperança celebrada é indispensável.

São Paulo disse que não podemos perder nenhuma oportunidade de evangelizar.

Esta é uma entre tantas oportunidades que não podemos perder.

Sou testemunha e admirador de diversos padres e fiéis leigos que jamais se omitem neste momento.

 

A Igreja tem rituais maravilhosos:

Leituras Bíblicas apropriadas; prefácios profundamente bíblicos e teológicos; bênçãos riquíssimas; textos incontáveis…

Há muitos tesouros a serem, ao povo, oferecidos!

É necessário sermos sinal do Bom Pastor junto ao povo sofrido!

Sinais de amor, solidariedade e compaixão,

Anunciadores da Boa Nova da Ressurreição!

 

PS: Publicado no jornal “Folha Diocesana” – Guarulhos – Ed. nº150.

     Reeditado para o blog.

criado por peotacilio    15:59 — Arquivado em: Homilias, Reflexões, atividade pastoral

Um dia a morte deixou de ser para sempre!

Um dia a morte deixou de ser para sempre!

 

Segundo o Apóstolo Paulo, quando ainda éramos pecadores, Deus por amor aceitou encarnar-Se em nosso meio.

Seu Filho em fidelidade absoluta morre na cruz.

Seu sangue derramado nos reconcilia com o Pai.

Amor que ama até o fim!

Morte que vence toda morte!

Veio das alturas do amor de Deus, encarnou e comunicou o incomensurável amor de Deus.

Testemunhou a profundidade do mesmo amor, descendo a mansão dos mortos para acordar os que adormeciam no sono da morte e conduzi-los à mesma altura de onde viera: Céu.

A morte, com Sua morte, deixou de ser para sempre.

A Vida enfim venceu a Morte: Morto, o Pai o Ressuscita.

É elevado acima de todo nome, entra na glória de Deus, redime toda a humanidade, somos justificados, reconciliados com Deus.

Vida Nova nasceu!

Somente a partir de Sua morte, a morte cedeu à Vitória:

“A morte foi absorvida na vitória.

Morte, onde está tua vitória?

Morte, onde está o teu aguilhão?”(1Cor15,55).

Ele quebrou para definitivamente os grilhões da morte!

Na Missa de finados a Igreja, sempre inspirada e fundamentada na Sagrada Escritura, apresenta uma belíssima introdução na Oração Eucaristia (Prefácio dos Fieis Defuntos n.IV).

Contemplemos a beleza e a profundidade da mesma:

“Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-Vos graças, sempre e em todo o lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso”.

Nele brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição.

E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola.

Senhor, para aquele que crê em Vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível.

“E, enquanto esperamos a realização de Vossas promessas, com os anjos e com todos os santos, nós Vos aclamamos, cantando a uma só voz: Santo, Santo, Santo é O Senhor…”

Graças a Jesus a morte deixou de ser para sempre, para tornar-se o verdadeiro nascimento:

“Se morrermos com Cristo, cremos que também viveremos com Ele (Rm 6,8)”.

 

Morte: um ponto final, parágrafo, na outra linha, para continuar a escrever nossa história na plenitude do amor de Deus: Céu.

A morte não é rompimento absoluto, definitivo, intransponível.

A morte em Cristo é a possibilidade de continuar a escrever uma bela e eterna história de amor, iniciada, aprendida, amadurecida no tempo presente, aqui na terra.

A partir da morte eterniza-se o que devemos viver como constante ensaio, treino, aprendizado permanente:

Alegria, perdão, solidariedade, comunhão, doação, plenitude de amor.

Viver é empenho constante no realizar da vontade Deus, e quanto mais o fizermos, mais o céu será presença e realidade entre nós.

Céu ou inferno?

Morte ou vida eterna?

Depende de nós!

Que o “Dia de Finados”, ou diante da morte de uma pessoa, de um ente querido, jamais percamos a oportunidade de nos perguntarmos qual o sentido que damos à vida, e de que modo já vivemos e antecipamos as alegrias inenarráveis dos céus.

Um dia a morte deixou de ser para sempre!

Quando Ele fez morrer a morte em Sua morte:

Morte de todas as mortes!

Confirma o que Oséias profetizou:

“Ó Morte, Eu serei a tua morte” (Os 13,14).

Aleluia! A Vida venceu a Morte!

 

PS: Reeditado e repostado para que, hoje, Dia de Finados, reflitamos de modo especial, sobre a morte e a vida eterna.

criado por peotacilio    15:44 — Arquivado em: Homilias, Reflexões

1.11.09

Naturalismo horizontal ou angelismo vertical? Sem radicalismo!

Naturalismo horizontal ou angelismo vertical?

Sem radicalismo!

 

Hã?! Talvez diga novamente.

Não me surpreenderia!

O texto do Missal Cotidiano (pag. 1428), que transcreverei abaixo, li e reli várias vezes para entender, e ainda estou relendo.

 

Antes dele cito a Carta de Paulo aos Romanos (8,18-25):

Refere-se aquela bela passagem bíblica que fala da criação que também espera a libertação da corrupção:

 “Sabemos que toda a criação, até ao tempo presente, está gemendo como que em dores de parto, e não somente ela, mas nós também, que temos os primeiros frutos do Espírito, estamos interiormente gemendo, aguardando a adoção filial e a libertação para o nosso corpo…”.

 

Vamos ao texto do Missal:

“Os problemas levantados pela ecologia têm chamado a atenção sobre o equilíbrio natural. Também em nosso modo de ver a natureza, devemos encontrar um equilíbrio. Entre um naturalismo todo horizontal, terra-a-terra, e um angelismo todo vertical, para o qual a terra não passa de base para os pés, existem outras posições mais realistas, portanto, mais cristãs. Ciência e técnica inclinam-se a um esforço de busca e transformação da criação. Mas, as energias descobertas são por si ambíguas. Nós é que lhes damos sentido: gloria do Criador ou desfrute da criatura. Num caso tem-se a expansão na liberdade; no outro, a distorção, grávida de consequências arriscadas”.

Naturalismo todo horizontal e angelismo todo vertical.

Termos não muito comuns ao nosso discurso, mas de pertinência incontestável.

Não somente em relação a criação, mas a outros fatos da vida (nascimento, vida, doença, saúde, emprego, relacionamentos amorosos, dimensão profissional, morte etc…) podemos transitar entre as duas atitudes.

Como? Indagará o leitor, e ensaio as primeiras reflexões…

Diante da vida podemos adotar a primeira postura, procurando respostas humanas, técnicas e científicas, prescindindo de toda dimensão espiritual, sobretudo se considerarmos o processo de dilaceramento interior aguçado da fé, da religião, da existência e da necessidade de Deus.

A busca de solução na pura razão científica e técnica e absolutamente desvinculada da fé.

Não há espaço algum para a fé!

 

A outra postura, prescindir da ciência, da técnica, de seus avanços. Não se utilizar daquilo que o conhecimento humano alcançou, com a inapropriada postura: Deus tudo resolverá!

Segue-se a atitude de passividade e confiança em Deus, pois cabe a Ele tudo resolver, sem fazer uso daquilo que por Ele também foi propiciado, mas que deliberadamente pela atitude pessoal dispensada. A fé que tudo resolve sem mediação alguma!

Nem uma postura, nem outra.

Adotada uma postura unilateral, exclusiva teremos o que se disse acima: “Num caso tem-se a expansão na liberdade; no outro, a distorção, grávida de consequências arriscadas”.

Mais uma vez vem a mente a brilhante Encíclica do Papa João Paulo II – “Fé e Razão”.

Como sacerdote, religioso, bem como cientista que também sou procuro transitar entre um pólo e outro:

As questões econômicas, políticas, sociais, ecológicas etc… Sejam elas quais forem somente encontrarão respostas, que as sustentem, sabendo-se fazer sabiamente este livre trânsito.

Quando a fé e a ciência procuram sincero diálogo:

Deus tem o seu lugar absoluto na vida humana e ela, por sua vez, ganha em expressão, beleza e dignidade!

A negação de Deus, Seu eclipse é a negação e o eclipse da própria humanidade como nos insiste o Papa Bento XVI, em suas Encíclicas e pronunciamentos.

Invoco sempre a sabedoria do Espírito Santo:

“Vinde Espírito Santo, enchei o coração dos Vossos fiéis…”

 

criado por peotacilio    9:30 — Arquivado em: Homilias, Reflexões

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